quinta-feira, 1 de setembro de 2016

As fragilidades do laicismo III


Qual é o pano de fundo do laicismo, então? A de que a Europa não tem uma cultura e História, só a dos museus e monumentos turísticos. A Europa não foi moldada por milhares de anos de História, mas História propriamente dita só a tem desde há cerca de duzentos anos. O resto são mortos sem relevância. É o espaço de memória dos laicistas, e não se sentem perder grande coisa, é evidente. História apenas a entregue por jornalistas, epopeia de pacotilha devolvida em prestações mensais de folhetim barato, fácil de assimilar. O laicismo abespinha-se porque traz uma cultura cristã atrás de si a que não se pode referir, e, vendo outras culturas, não as consegue integrar no seu mito. Carece de uma Igreja cristã para se poder opor, a sua actividade natural, e ficciona que as outras religiões são como cristãs para poder existir. Etnocêntrico sem o saber, rege que o mundo seja sempre medido pela mesma bitola: a cristã.

A Europa só é laica se esconder a sua História ou se a mostrar apenas sob a forma de museu, ou seja de múmia, património que tem de ser ao mesmo tempo preservado, mas segregado da vida comum. Nascendo de um mito de separação, o laicista separa tudo, separa a Europa da sua História. O nome latino que traduz a ideia de separação, como vem na Lei das Doze Tábuas, é o de «sacer». «Sacer esto», diz a Lei sobre o homicida. «Que seja separado». A História da Europa torna-se assim sagrada de forma triste, entre o museificado, como se fosse raiz morta, presença apenas mumificada, mantendo as suas formas por generosidade de uma cultura nova que não se importa de a cinzelar, desde que morta.

O laicista não pode defender a sua própria cultura, porque não existe. A sua cultura oficial vem apenas em livros de propaganda escolar, um mundo que nasceu há duzentos anos. Por isso, quando quer defender a cultura católica, que no fundo nunca deixou de ser a sua, tem de invocar os direitos dos homens, a segurança pública, os direitos das mulheres. Vai buscar ao seu fundo conceitos que não têm fundo. Entendamo-nos: o que por vezes quer o laicismo é bem legítimo. São os seus fundamentos que são espúrios. A sua fragilidade não decorre de alguns dos seus conteúdos (que são cristãos), mas da mentira dos seus fundamentos. O laicista não diz que é cristão, que é incapaz de ter uma visão do mundo além do cristianismo, é nele que assenta a sua visão, mas precisa de acreditar que assenta num morto. Mal percebe que assim repete o dito canónico: «morreu por nós».

O laicista tem de mentir em relação à sua origem, em relação à sua História, parasitar a ciência, reprimir as revoltas, e as Antígonas, dissimular o seu conteúdo e mumificar o seu passado. «Laos» é o povo em armas na Ilíada. O laicismo, para gerar entusiamo, tem de ser guerreiro. Não tendo guerras para fazer, ou inventa inimigos, ou pretende um mundo dormente à sua volta. Mas mesmo aqui repete um dos grandes mitos europeus, o de Camelot derrotado em que o rei Artur jaz adormecido para um reino futuro. Torna-se ele mesmo arcaísmo, revelando assim finalmente a sua última natureza. A de um mundo que saiu do nada e para ele esvanece.

 

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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terça-feira, 30 de agosto de 2016

As fragilidades do laicismo II


Em segundo lugar o laicismo mitifica a sua relação com a ciência. No mito laico, o laicismo surge no século XVIII é aplicado pela primeira vez no século XIX, e eis que a ciência explode nessa altura. Liga ambos os movimentos e considera pelo menos de forma implícita que a ciência é filha do espirito laico. Crasso erro. A revolução científica foi feita em terras cristãs, por cristãos e isto até a nossa época. Muitos dos nomes da ciências são de clérigos, nomeadamente a escola franciscana de física de Paris no século XIV, Newton reconhece que a sua maior influência na óptica é o arcebispo de Spalato Antonius de Dominis, a teoria atómica é reintroduza pelo clérigo Gassendi, o padre Mersenne é outro exemplo, a diplomática é criação de Mabillon, mas ainda no século XX o padre Breuil é o grande revolucionário do estudo da pré-História e o padre Lemaître o primeiro teorizador do Big Bang, objecto de admiração de Einstein. Uma ciência sem os cristianíssimos Newton, Galileu, Maxwell, Cantor, Planck seria algo menos ciência.

A capacidade de reelaboração da História por parte do laicismo dissolve a sua autoridade, dependendo assim de uma permanente actividade catequética, bem como da manutenção mais ou menos intencional na ignorância por parte das massas. Dando um exemplo. A geração espontânea. Como geralmente se conta a história? A tese que prevalecia «antes» (não é necessário definir o «antes») era a de que a vida era espontaneamente gerada a partir do inorgânico. Esta teoria era escolástica e, está bem de ser ver, logo, católica, aristotélica, enfim reaccionária. Veio Pasteur e destrui esta teoria obscurantista. História bem contada? Não. O grande defensor da teoria da geração espontânea era um laicista extremo, um senhor chamado Pouchet. Pasteur, que destruiu a teoria da geração espontânea, era católico. Pouchet como tantos laicos gostava da teoria da geração espontânea porque retirava o mistério da vida. Aparecer o orgânico do inorgânico deveria ser facto trivial. A vida perdia mistério. Exorcismo calmante para o laico, parece.

O laicismo junta-se assim ao islão e ao budismo enquanto parasita da ciência e da sua autoridade. Pensamento parasitário, exige confusão de géneros em todos os níveis. Precisa de estar do lado das outras religiões para encontrar o seu lugar natural. Católico de origem, o laicismo acaba por se juntar às outras religiões para se sentir coerente. Vindo de uma religião sem etnia quer como toda a religião criar uma etnia própria, o povo dos laicos.

Mas uma terceira fragilidade do laicismo é política, no seu sentido mais nobre. Se a lei civil prevalece sempre e em qualquer circunstância sobre a religiosa, Antígona já não é possível. Entendamo-nos: ao contrário do que letreiros apressados pensam, Antígona é importante, não por ser revolucionária, mas por ser reaccionária. Creonte, o seu tio, representa o direito revolucionário do Estado de fazer tabua rasa das tradições. Antígona representa o direito tradicional familiar de dar honras fúnebres aos mortos. A ideia não é minha, mas de Jouanna, e é bem vista.

O laicismo torna-se rapidamente uma teoria conservadora, e a França, país idólatra do laicismo acima de qualquer outro, mostra a sua natureza profundamente conversadora. A França da III República na versão laica radical mostrou-se paternalista, machista e retrógrada nos costumes, bem mais que a França do Antigo Regime.

A regra da prevalência absoluta da lei civil teria impedido os monges, freiras e padres e mesmo laicos católicos que, em nome do cristianismo, violaram a lei civil para proteger judeus perseguidos. A lei nazi ou comunista prevaleceria sempre e em qualquer caso. O laicismo é assim apanhado na sua própria armadilha. Se a lei civil prevalece sempre, a lei fascista e cruel deve prevalecer sobre a lei humana. Mas se a lei humana deve prevalecer? Onde a encontra o laicismo essa dita lei humana?

E aqui se percebe a quarta fragilidade do laicismo. O laicismo mente quanto ao seu conteúdo. O seu conteúdo de humanidade herda-o do cristianismo. Mais uma vez, não é acaso que o dito laicismo nasça em terras cristãs. A imagem de humanidade herdou-a do cristianismo. A História da secularização em França mostra como desde os girondinos até a III República radical, passando por Hugo, se foi criando uma religião da humanidade que tem por base o cristianismo, de início não obnubilado, e com o tempo cada vez mais recalcado e escondido. O laicismo em si mesmo esgota-se no seu sucesso. Separando a Igreja do Estado, tendo a Igreja interiorizado essa separação, perde a razão de ser do seu programa. Mas, se aparece outra religião sem Igreja, não sabe o que fazer. Diz-se universal, mas erigiu-se contra o cristianismo, ou mais precisamente contra o catolicismo. O protestantismo já estava capturado pelos Estados, eram os Estados a não ter interesse na separação. Sem o cristianismo sente-se sem pé. Não há Igreja a que se opor. Perante o budismo, o islão ou outras religiões estranhas à Europa fica sem termos, sem discurso, sem tópicos argumentativos. Precisa para isso de inventar uma espécie de hierarquia, uma espécie de Igreja católica, foi com base ela que se construiu. O laicismo cristianiza todas as religiões, acha-as separáveis do Estado, porque religião verdadeira para ele é o cristianismo. O resto é etnologia. O laicismo quer religiões que não sejam étnicas, que não estejam ligadas a etnias ou que no fundo pertençam à sua etnia. Mas só uma preenche esses requisitos. O cristianismo. O laicista é um recalcado. Não pode falar da sua intimidade porque é cristã, tem por isso de fingir que não a tem.

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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

As fragilidades do laicismo I


 

 

Sejamos justos. Depois de analisar as fragilidades do islão temos de nos confrontar com o instrumento que se usa na Europa, sobretudo nos países latinos, contra o islão: o laicismo. Instrumento sobretudo na Europa do Sul, porque a do Norte não confunde liberdade de religião com laicismo e nunca precisou dele para instaurar a primeira.

O laicismo é brandido pelos franceses, mas também portugueses espanhóis e italianos para enfrentar o islão. Será o instrumento mais adequado? Não me parece, porque, quanto mais se brande o argumento, mais se vêem as suas fragilidades. Vejamo-las.

Em primeiro lugar, o laicismo mente quanto à sua origem. O laicismo é filho do cristianismo. O velho «dar a César…». Os laicos nunca se perguntam por que razão o laicismo nunca foi criado em terras do islão, ou de budismo. Aceitam o mundo tal qual está e inventam origens míticas. É filho do cristianismo também pelo valor que supostamente dá ao homem. A dignidade da pessoa humana é conceito cristão. Assenta no cristianismo porque colado a ideias eclesiásticas como a de soberania popular (Marsílio de Pádua no século XIII), ou a votação pelo povo dos impostos que o oneram (Ockham no século XIV). Herdeiro das chancelarias reais e imperiais, desde sempre dirigidas por clérigos. Movimento de origem eclesiástica, quer limpar da sua História todos os traços das suas origens.

Mas mente igualmente quanto à sua História. A separação entre o Estado e a Igreja historicamente é em primeiro lugar separação da Igreja em relação ao Estado. O cristianismo, de religião tolerada, torna-se religião do império. É o imperador que convoca os concílios, que regula o estatuto da Igreja. Com a queda do Império Romano a Igreja pode-se finalmente libertar da tutela imperial no Ocidente. Ao longo de toda História da Europa a luta da Igreja é contra um Estado que pretende intervir na Igreja nomeando dos bispos (a célebre questão das investiduras), definindo os privilégios eclesiásticos, por exemplo. Não falo de História longínqua. É nos anos de 1980, em pleno século XX, que o Estado português renuncia ao seu direito de veto na escolha dos papas. Se a Igreja criou uma ideologia teocrática em algumas épocas, a ideologia regalista, galicana e outras foram igualmente criadas por clérigos contra a Igreja. Os chanceleres imperiais que defendiam o império contra a teocracia eram bispos, o galicanismo foi também criado por bispos franceses. Nos países protestantes a máxima autoridade eclesiástica pertence aos príncipes, Pedro o Grande na Rússia acaba com o patriarcado russo. A ideia de que o torno e o altar se uniram resulta de uma solução tridentina em que o altar teve de fazer muitas concessões ao trono com Filipe II e o seu descendente Luís XIV.

O laicismo mente quanto à sua História intolerante e persecutória. A França revolucionária, a da III República, Portugal da I República, o México, os regimes nazi e comunista foram tudo menos de verdadeira liberdade religiosa. Laicismo e liberdade religiosa opõe-se. Os regimes laicistas na sua maioria foram ditatoriais ou autoritários. Laicismo e democracia convivem muito mal. E tenderam sempre para o cesaropapismo, ou seja, o domínio da Igreja pelo Estado. O laicismo esconde assim a sua História violenta, intolerante, dominadora e sufocadora da liberdade religiosa e do pensamento. O laicista julga que já superou esta doença infantil da sua benquista ideologia. Mas é doença de origem, é genética, e corre a todo o momento o risco de ter surtos.

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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Quem quer o multiculturalismo?


 

A pergunta é de simples resposta, pensando numa perspectiva politica e não na choradeira:

a)      Residualmente os defensores da ideologia colonial;

b)      A esquerda alternativa;

c)      O capitalismo internacional;

d)     Os idiotas úteis;

e)      Os futuros déspotas.

Não sobram muitos, mas entre povos imperiais ainda há uma réstia desta ideologia, e foi ela que tornou tolerável durante décadas o multiculturalismo. O modelo do «Raj» britânico sobre a Índia é muito simples: para hindu e muçulmano basta aquela cultura retrógrada. Desde que não haja mortos na rua e se mantenha a segurança do comércio, eles que se entendam. São culturas inferiores, já viram a sua hora de glória, não se pode esperar mais delas. Mas, se não há muitos cultores conscientes desta ideologia, pelo menos oficialmente, ela é fundamental porque traduz uma linha de força de muito longo prazo. Os ingleses beberam a inspiração dos modelos romanos que mantiveram a autonomia dos municípios e algumas estruturas regionais, tetrarquias, régulos, principados. E mostra o fundamento último, o modelo de base, de todo o pensamento multicultural. Este é sempre imperialista na sua inspiração.

A esquerda alternativa defendeu sempre o multiculturalismo. O fundamento não é humanista, mas o ressentimento contra a base cristã de uma civilização em que nunca deteria superioridade de qualquer natureza, nem de beleza, nem de nascimento, nem de grandeza intelectual. O ressentimento leva a pegar em tudo que vá contra o seu centro vital, e o seu centro vital é, apesar dos seus protestos, a civilização cristã que lhe deu direito à vida. Os alternativos favorecem o multiculturalismo porque tudo vale mais que a Europa, essa Europa que pela sua exigência lhes desvela a natureza vil. Se tiverem de escolher, aceitam mesmo o abaixamento das mulheres, o aviltamento de crianças, a falta de liberdade geral. Tudo, desde que não seja a Europa.

O capitalismo esfrega as mãos. Não é por acaso que os tradicionais partidos marxistas ortodoxos nunca viram com muitos bons olhos a vinda de muitos imigrantes. Sabem bem que se trata de um exército de reserva proletário que abaixa o poder negocial dos trabalhadores. «Não queres? Há sempre um tunisino que está disposto a ganhar metade». O capitalismo esfrega as mãos ao ver estas deliciosas condições de trabalho em que pode escolher o menos bom, mas por muito menos preço.

Restam os idiotas úteis. Estes são usados por todos: uns usam os seus sentimentos cristãos, outros, sabendo que o público não se diz (ou sabe) cristão, apelam para os direitos do homem, a civilização, a democracia, que espantalho melhor sirva para os seus fins. O bom do Lenine conhecia bem a importância dos idiotas úteis. O idiota útil sente-se útil, mas é-o apenas porque…é idiota.

Restam? Ainda no fundo do túnel aparece uma figura bem mais sinistra, mas que é a conclusão lógica deste movimento. Os futuros tiranos. A história grega mostra que os tiranos tiveram duas políticas em comum. A criação de exércitos profissionais, de mercenários, e a indução forçada de heterogeneidade das populações para as tornar mais dóceis. Quando a população se torna heterogénea cria tensões entre si, e isso justifica a existência do tirano para manter a paz. Quando se torna heterógena é bem mais difícil actuar como uma só contra o tirano. As populações que vieram de fora vêem o horror que é a vida heterógena e aceitam melhor os seus regimes. Tornam-se mais submissas. Os futuros tiranos vão agradecer o multiculturalismo. Abriu-lhes o campo para o seu futuro reino.

Ideologia de índole imperial, apoiada pelo ressentimento e pela cupidez, e sufragada pela idiotia prepara na sua conclusão o que é a sua origem: a tirania.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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quarta-feira, 13 de julho de 2016

O Reino Unido vai sair de Schengen?


 

 

Que pergunta tonta. O Reino Unido não está em Schengen como se pode sequer colocar a questão de saber se vai sair dele?

Todos concordam, todos os ingleses dizem que estão fora, os meios de comunicação social sabem com certeza absoluta que Schengen não inclui o Reino Unido.

A questão é a de saber que por mais esta via estamos numa comédia de enganos.

 


 

Foi o Reino Unido forçado a isto? Não. Fê-lo por sua única e exclusiva iniciativa.

 

Entendamo-nos. Faz parte de Schengen no que respeita aos poderes do Estado, mas não no que respeita aos direitos dos cidadãos. Absurda argumentação.

Os ingleses estiveram sempre orgulhoso por não terem os direitos dos outros europeus, quando estavam sujeitos às mesmas sujeições. Feliz sujeição que se orgulha da falta de direitos.

Comédia de enganos. E dizemos nós que vivemos uma sociedade cada vez mais transparente. Goebbels tinha razão, uma mentira mil vezes repetida torna-se verdade. Este o seu Reino. Os vencedores encontram-se sempre em cantos insuspeitos. Quando os actores têm baixo coturno na melhor das hipóteses temos comedia. Mais baixo ainda, apenas farsa.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga.

 

 

 

 

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quinta-feira, 7 de julho de 2016

Fragilidades do islão V

 

Em sétimo lugar o islão foi fragilizado pela ideologia multicultural que imperou na Europa desde os anos 90 por influência britânica e americana. Precisamente o inverso do que queriam os cultores do multiculturalismo.

O primeiro passo desta ideologia foi o de marcar a alteridade absoluta, o de exigir o direito à diferença, à radical diferença. Hoje em dia, os mesmos que exigiam a radical diferença ao islão apresentam-se com um discurso mitigado, a típica estratégia do «sim, mas…». Sim, há crianças de nove anos casadas com homens maduros entre os refugiados na Noruega, mas…. temos de perceber as circunstâncias. Sim, é feio bater nas mulheres, mas… temos de perceber outras culturas. Sim, é feio lapidar pessoas, mas… temos de dar tempo ao tempo. O lobo colocou a pele de cordeiro para nos obrigar a compreender o inaceitável. A diferença radical passou a ser excepção a valores que se admitem comuns.

A questão é que esta nova estratégia deixou de ser credível. Perdeu-se o efeito de surpresa, a contradicção com o passado fica notória.

O filo-islamismo decorre de muitos factores. Tudo na vida decorre sempre de muitos factores já o sabemos. Interesses políticos eleitorais dos trabalhistas ingleses, socialistas franceses e verdes alemães, interessados em substituir eleitorado popular que se vira para direita, ignorância das culturas alheias, religiões irénicas de substituição, herança da ideologia colonial em que os nativos se mantêm nas suas culturas desde que a segurança não esteja em causa. Há de tudo. Mas em última análise o filo-islamismo na Europa resulta de uma visão uniforme do ser humano, em que as diferenças são irrelevantes, em que o homem é um produto industrial padronizado. A diferença é apenas uma marca comercial, que no fundo em nada afecta o produto. Comungando todos da mesma natureza, nunca podemos desenvolver diferenciações substantivas.

Ora foi precisamente esta ideologia multicultural de origem colonialista britânica que mais prejudicou a possibilidade da convivência pacífica do islão com a Europa, e dificultou um seu verdadeiro reforço. Tanto mais abespinhado quanto mais frágil, o islão faz a sua força na exacerbação… e a sua fraqueza. Se o menino faz birra é sinal de que tem razão. Até lha deixarem de dar de todo. A injustiça nesse caso começa a ficar do lado contrário, também ele agastado. Mas neste caso já é tarde demais.

Em suma, muitas as fragilidades do islão: divisões religiosas e étnicas e geográficas. Cultura sobre pressão no Oriente e em grau cada vez maior no Ocidente. Cristianizada internamente de modo inelutável no seu modo de pensar. Sem prestígio cultural. Confrontado com uma religião que sempre praticou a autocrítica como o cristianismo e sem ter armas próprias para responder ao ataque crítico. Escorregando cada vez mais para a alegoria, sempre sinal de religião em fenecimento progressivo. Vítima de conversões ao cristianismo religioso, prático ou ao ateísmo de base cristã. Fragilizado e desautorizado pelo multiculturalismo que lhe deu visibilidade pela primeira vez na Europa. Visibilidade que lhe mostra as fracturas.

Há uns simplistas que dizem que islão está a morrer. Por dentro, demograficamente, por a religião que mais cresce no mundo ser o cristianismo, sobretudo na sua versão evangélica. Desconfio de estatísticas apressadas. Mas se o islão nasceu também por ensinamento cristão mal assimilado está agora a forçar-se à mudança sem conseguir de novo assimilar a aprendizagem do cristianismo. Dilema trágico: ou o assimila dissolvendo-se, ou o recusa fragilizando-se ainda mais. O seu destino político, apenas político (desafio algum leitor a que em diga ter lido algum manual de teologia islâmica que o tenha esmagado pela sua grandeza cultural) é uma manifestação da sua fragilidade intrínseca. Sem a vitória política condena-se aparecer nu perante o espírito europeu. Aparece o que sempre foi. Deixo a valoração para o leitor.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Fragilidades do islão IV


A fragilidade religiosa agudiza-se pela pobreza da exegese islâmica não habituada a confrontar-se com a crítica. Dois exemplos.

Na tradição islâmica Cristo não morreu na cruz. Ora os testemunhos mais próximos dos factos são unânimes. Houve um Jesus que morreu na cruz. Bem sabemos: a ideia muçulmana terá vindo de uma heresia, o docetismo. Em geral, cada vez mais percebo que o islão e o cristianismo se comunicam apenas entre heresias. As suas vias de comunicação nascem de deformações geométricas. Os sufis geram a admiração na Europa, os dissidentes cristãos foram mais fundamentais para o islão. Apenas mostra a imensa diferença das religiões. As boas regras de crítica histórica indiciariam que a versão muçulmana é falsa. O risco de falsidade histórica inquina as suas fontes.

O segundo exemplo é mais intrinsecamente religioso: o caso das houris, o das setenta e duas virgens. Perguntamo-nos: porque se mantém virgens? Se são seres humanos, quer dizer que há seres humanos cuja vida é meramente instrumental para os mártires, que não é fim em si mesmo? Ou trata-se de bonecas insufláveis, de meros autómatos? E qual a recompensa das mulheres mártires? Deveriam tornar-se lésbicas para fruírem de tal recompensa? A questão não é caricata. Prende-se com toda a oferta escatológica. E são problemas que os próprios muçulmanos começam a colocar.

A versão do paraíso islâmico é muito terrena, bem o sabemos. Mas também bem sabemos, entra aqui a interpretação alegórica. O que se pretende com estas imagens é reflectir a felicidade no paraíso, etc. etc. Seja. Mas a interpretação alegórica é, como a experiência pagã o demonstrou, simultaneamente um sinal de apego e de fracasso. Os deuses do Olimpo, os episódios do Antigo Testamento carecem de interpretação alegórica. Não as parábolas do Novo. Necessitar de uma interpretação alegórica significa diluir o mito original na construção teórica, até a força original se dissolver. A interpretação alegórica pode resistir séculos. No caso grego resistiu mais de mil anos. É certo, mas com os custos de uma dissolução cada vez maior da religião grega sob o peso da interpretação. Porfirio, Jâmblico, Proclo e Damáscio são bons exemplos disso.

Podiam-se multiplicar os exemplos. Discutir num cenário de televisão durante horas as maravilhas de um profeta que se casa com crianças ou manda matar pessoas, ou os exemplos múltiplos de uma História islâmica que tem violências sem fim (todas as Histórias têm), mas que não reconhece a sua natureza violenta, ao contrário do que, por influxo cristão, a Europa reconheceu, são tantos outros exemplos de que a cultura islâmica passa mal por crivos civilizacionais mais exigentes, aos olhos europeus, pelo menos. Todas as culturas são violentas. A cristã reconhece que o foi e é. A islâmica não. Essa a diferença. Escolha-se entre as duas. Mas esses olhos europeus são olhos de pessoas que vieram de culturas muçulmanas também, e vivem na Europa ou alhures.

A isto se tem de acrescentar um sexto factor de fragilidade não muito referido, este no âmbito da sociologia das religiões. As conversões ao cristianismo, geralmente mais secretas, por força da pressão social em relação ao convertido, pressões que a Europa tolera com bonomia.

Há conversões de muçulmanos ao cristianismo que não são despiciendas. Não controláveis, sem estatísticas fiáveis, é um factor silencioso, que não pode ser descurado. O sincretismo prático também se observa, nomeadamente em regiões como Marselha, como é típico das sociedades que se vão tornando mestiças. E a este acrescenta-se a indiferença religiosa, o agnosticismo e o ateísmo. Também por influência da Europa. Perigosa estratégia o dos muçulmanos que querem uma invasão de muçulmanos na Europa. Correm o risco de criar novos cristianizados, ou mesmo cristãos.

O islão é fragilizado pela cultura europeia e não apenas na Europa. De natureza já está dividido religiosa e étnica e politicamente. Sob o ponto de vista geoestratégico é uma cultura sobre pressão, tanto quanto se pretende expansiva. Sob o ponto de vista religioso é marcado pelo cristianismo nas suas categorias e linguagem, dissolvendo em parte a sua identidade ou abespinhando-a. Sendo religião sem prestígio cultural e confrontando-se com a cultura mais criativa do mundo, tanto mais quanto menos se afirma com tal, o islão faz figura de parente pobre e subdesenvolvido do cristianismo. Sem História sólida de auto-crítica, sujeita-se a ser criticado por instrumentos que não criou nem domina e que têm um efeito dissolvente das suas bases. Fragmenta-se como crença, perde adeptos assim como os ganha, mas sempre num ambiente que tende a dissolver a sua força interior.

 

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sexta-feira, 1 de julho de 2016

Fragilidades do islão III


 

Mas esta fragilidade cola-se a uma quinta a ela associada. A própria religião encontra-se em confronto com o cristianismo na Europa, sobretudo. A crítica ao cristianismo não foi importada. Não chegaram à Europa, muçulmanos, budistas ou hindus, e descreveram-nos as múltiplas contradições ao cristianismo. Se queremos ver uma análise profunda, e uma demolição estruturada do mesmo, é através do pensamento europeu que a temos de procurar. Essa é paradoxalmente a força do cristianismo. Sob o ponto de vista intelectual saiu bem mais forte dessa discórdia, até porque os principais críticos eram cristãos, não apenas de cultura, mas de igualmente de fé. Esse exercício de crítica permitiu libertar a fé do folclore, do traço etnológico que ainda sobrava, da marca histórica meramente acessória. A argumentação está preparada, é robusta, habituada a uma crítica que nasceu dentro do cristianismo. Se é ouvida ou não, é questão que tem mais a ver com a cultura de cada qual. Mas existe e é sólida.

O cristianismo não começou a ser criticado com a Reforma, ao contrário do que o vulgo pensa. O cristianismo já nasceu criticado. Celso ou Porfírio ou Juliano são anteriores à vitória do cristianismo. E são os mesmos que defendem o cristianismo que nos preservaram os que o criticaram. É através dos autores ortodoxos que podemos hoje em dia reconstruir as obras dos autores pagãos que criticaram o cristianismo. Mas, não menos importante, o cristianismo desde a origem conhece bem as suas fragilidades. Não é exemplo do grego perfeito, nem da cultura perfeita. São Jerónimo bem o sabia. O cristianismo desde o seu nascimento que sabe não ser expressão cultural perfeita.

Já o islão se critica a si mesmo apenas pelo confronto com a cultura cristã. Os muçulmanos vêem que se vive melhor na Europa que em qualquer país islâmico. Basta ver os que fogem através da Turquia e não querem nela parar, e tanto mais habilitados, mais esclarecidos, mais fogem da Turquia, grande país muçulmano e dito europeu por tantos, mas que afinal não ilude os mais capazes. Não sou eu a dizê-lo, mas outros muçulmanos que com convicção viram o traseiro à Turquia. O islão careceu da cultura cristã para aprender a auto-crítica. Não lhe inere, vive-a como postiça e modo trôpego.

 

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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Fragilidades do islão II


Há uma terceira via pela qual o islão aparece fragmentado no que respeita à Europa. Confrontado com uma Europa que não se quer ou sabe cristã, mas por isso mesmo inconscientemente movida pela força deste, o islão estilhaça-se como religião em três correntes.

A primeira cristianiza-se, mesmo sem o perceber. Problemas como os da liberdade e do amor, que nunca foram centrais no islão, passam a ser usados como bandeira do islão. O islão é anunciado como religião de liberdade e amor, quando nunca foram estas as suas características. É certo que umas vezes isto acontece por mera estratégia de comunicação. Mas não deixa de ser verdade que, espantados por descobrir uma religião em que existe uma relação pessoal com Deus, como o cristianismo, em que o tema de liberdade do ser humano é central (contra o sempre simplificado, mas não menos presente fatum mahometanum) os muçulmanos cristianizam a sua prática.

Em segundo lugar, cria-se uma corrente do islão na Europa que se caracteriza pela oscilação, inevitável sem dúvida, na medida em que os conceitos em que trabalham, as categorias, são europeias, e em que a mensagem do islão é contaminada por valores europeus, e consequentemente cristãos.

Numa terceira modalidade o islão abespinha-se, cristaliza-se na sua diferença. Mas mesmo aqui é por influência de uma cultura cristã.

Estes fenómenos não são novos. O hinduísmo em contacto com o islão também ganhou características diversas. Por exemplo, como Sergent mostrou, a importância das restricções sexuais aumentou muito no hinduísmo por influência do islão e encontra-se por vezes mais marcada… nos fundamentalistas hindus.

Em quarto lugar o islão tem uma fragilidade de monta: a sua esterilidade cultural. Desde o século XIII que não produz nada de relevante. Nem um matemático, nem um físico, nem um filósofo, nem um músico, nem um grande escritor, muito menos escultor ou pintor. Parece uma questão ociosa, mas está bem longe de o ser. O poder cultural é menor do que o desejam os pingões, mas é bem maior do que o julgam os grosseiros. Não tendo exportado senão o kebab e dois ou três aspectos folclóricos, essa é uma grande fraqueza. Associar palavras como matemática e islâmica apenas faz rir, ou quando muito sorrir de condescendência. Não é um bom começo sermos objecto de condescendência.

 

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quinta-feira, 23 de junho de 2016

Fragilidades do islão I


É fácil anunciar forças e fragilidades e bem fácil dizer que fragilidades significam derrota. Da mesma forma é discurso fácil, como o de muitos políticos europeus, o de dizer que numa luta entre o islão e a Europa esta última perderia. Além do erro de análise, mostra qual o fundamento da sua suposta tolerância em relação ao islão: o medo. Partem derrotados para o debate.

A fragilidade não quer dizer derrota. A Inglaterra tinha fragilidades sem número durante a Segunda Guerra Mundial. De Gaulle tinha apenas fragilidades, ou quase, quando começou em Junho de 1940.

De novo, saliento, não anuncio uma guerra, mas apenas faço análise. As forças do islão terão de ficar para outras núpcias, mas não resultam nem da força intrínseca da religião e muito menos da força intelectual da cultura.

Assim podemos ver quais as fragilidades do islão sem daí retirar consequências indevidas. Comecemos pelas mais fáceis.

O islão está divido em correntes religiosas diversas que não se amam entre si. Xiitas, sunitas, karedjitas, sem contar com outras. Mas também divisões étnicas fortíssimas, em que árabes, persas e turcos não se amam propriamente e em que se trocam desprezos, intelectuais, culturais, políticos.

O islão está longe de ser um contínuo. Na Indonésia é uma coisa, no Afeganistão outra, na Turquia outra. A experiência da República Árabe Unida de Nasser e da Liga Árabe mostram que a solidariedade é grande em sentimentos e palavras, mas tende a ser nula em actos. A Jordânia, a mesma que acolheu tantos refugiados, matou mais palestinianos que muitos ataques israelitas, só para se livrar deles. Estas divisões geopolíticas são triviais e qualquer um as pode enunciar.

Mas existe um segundo dado que não vejo referido. É que o islão é uma cultura sobre pressão. No Oriente tem duas grandes potências que lhe servem de travão em modos diversos. Os chineses não têm nada contra o islão, desde que seja muito minoritário nas suas portas, e esteja sobretudo fora delas. E não têm qualquer problema de consciência de, caso o islão tenha intenções guerreiras contra a China, de pura e simplesmente aniquilar seja de que forma for, o islão e os islamitas. Técnica fácil, sem grandes elaborações.

Já a Índia incorpora o islão dentro das suas fronteiras, mas não pretende ser subjugado por ele. Desde que seja um islão contido, incorpora-o, caso não o seja, não tem também problemas de consciência na matéria.

A Rússia, por outro lado, sabe bem como lidar com o islão, após muitos séculos de contacto, conflito e depois domínio de muçulmanos.

Os moles são apenas os europeus, mas esse bem sabemos que é estatuto que se muda com a História.

O islão é pois, ao contrário do que se diz, uma cultura sob pressão, fortemente contida de muitos lados, e em risco de o ser cada vez do lado ocidental. A ideia de uma Europa mole é apenas uma ilusão de óptica criada nos anos 90, uma das épocas mais medíocres da História do pensamento – ou da ausência dele.

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quarta-feira, 16 de março de 2016

Pátroclo e Aquiles II


 

 

Mas há Briseide. Aquiles afinal tem apego por uma mulher, que é suficientemente importante na sua vida para largar a sua arte principal, a luta contra os troianos. Suficientemente importante para cortar a sua relação com o groso das tropas dos aqueus.

Sim, Briseide é importante na história. Mas a que título? Vemos a sua importância por três vias.

Em primeiro lugar, do que se queixa Aquiles é ter sido retirado o seu despojo de guerra, não o seu amor. A ofensa que lhe fazem é militar, uma ofensa e militar, não um desgosto de amor.

Em segundo lugar, Agamémnon tem de jurar, quando devolve (lietralmenet0 Briseide a Aquiles que não a levou para o leito. Também Agamémnon, que gosta d mulheres, não sua sexualmente do despojo de guerra forçosamente. Repare-se que Agamémnon tem de o jurar perante os deuses e perante o povo dos aqueus, a forma mais solene de juramento. Não poderia incorrer qualquer ira divina. A situação era ariscada demais para o fazer. Agamémnon diz portanto a verdade. Não foi para a cama com Briseida. Assim sendo é natural que Aquiles também não a tenha usado sensualmente. É menos certo mas não deixa de ser provável.

O terceiro elemento é Briseide chorar sobre os despojos de Pátroclo. Tem por Pátroclo uma ternura, uma exposição da sua doçura que não seria muito verosímil se partilhassem ambos o leito com Aquiles. É certo, tudo é possível, e à falta de juramentos solenes com risco da derrota total e ira dos deuses e vergonha absoluta como o de Agamémnon apenas podemos colocar hipóteses. Ménage à trois, a muitos (há outras escravas junto de Aquiles), amor entre Briseida e Aquiles e Pátroclo apenas amigo…

As hipóteses são muitas mas ficam reduzidas. Aquiles não lutou de morte pelo retorno de Briseida, queixa-se do dom de guerra, do despojo, não teve desgosto, mas despeito, ira, a boa da «menis». A «menis» é uma ira sagrada. Mas já com a morte de Pátroclo a sua ira é bem humano é o «cholkos». Nunca chorou por Briseida, apenas amua. Chora, e chora precisamente por Pátroclo.

Pátroclo não era um amante ritualizado, já o vimos. Não era o «eromenes» de Aquiles. Não o podia ser. Não era mais novo. Mas era sobretudo um guerreiro já preparado e que guerreio. Quando usa as armas de Aquiles, que guerreiro… Mata e mata e mata. Pátroclo não é morto por ser um presunçoso que decide pôr-se nos calcanhares de Aquiles. Morreu porque até os grandes guerreiros morrem. Heitor, o próprio Aquiles, embora isso nãos seja contado na Ilíada, mas seja nela muitas vezes anunciado. Pátroclo morreu porque chamou a si as atenções, a sua exibição foi a sua forma de sacrifício. Morreu porque se tornou fascinante, presa de todos os troianos, porque os deuses o decidiram, porque assim acontece com os melhores guerreiros.

Pátroclo não é um amante ritualizado, portanto. O primeiro casal da cultura europeia, o primeiro cujo amor e dificuldades, eros comuns e tragédia aperce em toda a sua glória é o que forma Pátroclo e Aquiles. São eles o paralelo de Ulisses e Penélope na odisseia.

A questão não passa por ideologias simplistas que orgulhos, de orientações, de opções sexuais. Não passa pelo discurso igualmente vácuo sobre a natureza, o valor das instituições, ou dos sacramentos. Os problemas existem, porque existe uma coisa chamada realidade. Invocar a complexidade é vácuo, enunciá-la necessário. Inútil, aceito, inútil muitas vezes numa época que se delícia com os brocardos e a chamada rápida de atenção, que não gosta do fundamento.

Mas é sobre esta obra poderosa, muitas vezes crua, outras delicada, de guerreiros que fazem sacrifícios humanos – Dólon no Canto X é morto de forma indigna porque é feio e deseja acima do seu nível – de guerreiros mortos selvaticamente despojados das suas armas, como animais a quem se retiram os cornos, ou a pele, de Aquiles levando Heitor arrastado por correntes enfiadas nos seus tendões. Os calcanhares mais uma vez. É neste mundo com uma relação directa coma violência, com o mundo que nos invade de forma dura, que assenta toda a cultura europeia. Não apenas sobre ele. Também nós somos mais complexos. Mas também e muito fundamentalmente sobre ele.

E desse mundo faz parte o primeiro casal que partilha destinos, a tenda o barco, a glória, a vida. Pátroclo e Aquiles. Aquiles o homem da dor, seguido de Ulisses, o odiado, nome dado pelo seu avô materno. De onde vem o amor? Procurar as origens é sempre contemplar o abismo.

 

Alexandre Brandão da Veiga.

 

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terça-feira, 15 de março de 2016

Pátroclo e Aquiles I


 

A boa da etimologia prega-nos surpresas. Pátroclo é a «glória do Pai», sendo bem possível que Pai seja Zeus. Pátroclo é nesse sentido o contrapeso de Héracles, a glória de Hera. Aquiles para uma boa etimologia é a dor (ainda hoje em dia em inglês «ache» como em headache mostra este significado) e dor do «laos», do «povo em armas». Exactamente a origem do laico, e laicismo.

Até ao momento parece estarmos a brincar com palavras. Há brincadeiras mais perigosas, é verdade. Mas a questão interessa-me noutros planos.

Desde sempre achei que o primeiro ser humano, o primeiro que sai completamente do baixo-relevo de Gilgamesh ou do alto-relevo da Ilíada, é Ulisses. Ulisses tem tudo, do bom e do mau, fada e demónio, humano em suma. As personagens de Ilíada sempre me apareceram mais planas, por vezes altos revelos, mas não se destacando do pano de fundo geral de que apreciavam. Com volume, mas não totalmente descoladas da pedra do templo sobre o qual tinham sido esculpidas.

Somos sempre injustos. Também isso é verdade.

O primeiro casal é Penélope e Ulisses. Pela primeira vez duas pessoas com pleno volume se encontram, sem paixões apressadas, com desejo de fidelidade. Penélope e Ulisses encontram-se também pelas suas semelhanças. São inteligentes. Cada um na sua forma, dentro das suas possibilidades sociais. Mas são um casal. Um casal a serio, não uma história de amor até ao encontro fatal, mas depois do encontro. É depois do encontro quês e desvela a história mais importante. Não é a história do «casaram-se e foram felizes para sempre» numa felicidade remissiva. É exactamente o oposto: «já se tinham casado e eis a felicidade que se encontra». A uma felicidade rugosa, imperfeita, marcada por uma longa separação.

Penélope e Ulisses não se amam por terem ilusões sobre um futuro comum. Amam-se porque sabem que são o presente um do outro. Neste sentido são o verdadeiro primeiro casal da História, o primeiro a ser representado na sua plenitude. Significativo o facto de tanto Odisseu, como Penélope como Telémaco serem unidos não pela deusa do lar, Héstia, ou do casamento, Hera, ou por Afrodite. É Atena quem protege os três. Não há nenhuma «agape» que unifique as relações entre as pessoas, todas as pessoas. É a inteligência, e uma inteligência guerreira que as pode unir.

De novo, pareço divagar.

Voltemos a Pátroclo e Aquiles. A erudição clássica, os filólogos, os antropólogos que se preocupam com a Grécia antiga, e aqui a escola francesa de um Gernet, de um Sergent são magistrais, mostram que havia uma tradição homossexual aristocrática, iniciática guerreira. Estes adjectivos não estão aqui por acaso. Quando se pretende usar os gregos como exemplo para liberdade de costumes é preciso ter cuidado, rever os seus brasoes, se os temos realmente, a nossa coragem, se dela somos dotados, o nosso espírito de aventura, se o possuímos. Não é para todos. Nada nas culturas antigas é para todos. Foi essa capacidade de diferenciação que lhes permitiu ser cultura.

O problema é que Pátroclo e Aquiles transcendem esse esquema. Não o põem em causa, coisa que alguns extremistas iriam logo dizer. Peritos da excepção, do contra-exemplo, gostam de invalidar toda a regra apenas porque são cultores da confusão. Mas a regra nunca impediu a flexibilidade, como gramática nos ensina, com as variantes e a excepções. Mesmo elas tem uma causa, não são prova de anomia, mas de vitalidade.

Os esquemas tradicionais desta homossexualidade ritualizada quebram-se todos com Pátroclo e Aquiles. Aquiles é socialmente dominante, manda Pátroclo preparar as acomodações, e mesmo a comida, mas Pátroclo é um pouco mais velho. Aquiles não pode ser o «eraste» nem Pátroclo o «eromenos», um o amante outro o amado, um o professor, outro o discípulo. Se o mais velho e socialmente o mais apagado isso só pode significar que o esquema tradicional seria cortado.

Mas já o velho discurso de Tétis, com a morte de Pátroclo, lembrando Aquiles de que também existe amor pelas mulheres. Outro corte com a ritualização. Depois da prova o «eromenos» deveria tornar-se adulto, ou seja, casado, ter filhos, largar o seu papel de «eromenos». Ora Aquiles nem é o amante nem o amado ritual, já o vimos. E não larga uma vida que supostamente seria transitória. Adolescente irrecuperável? Seria fácil dizê-lo. Quantas conversas teria tido com Tétis não relatadas por Homero?

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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A questão judaica II

Isto foi possível não por força judaica. É a própria sociedade cristã que tinha retirado virulência ao cristianismo, tinha-se vacinado contra ele, ou seja, tinha-se reinoculado dele em versão adormecida. Foi sobre este auto-enfraquecimento do cristianismo que puderam os judeus trabalhar.

O cristianismo foi assim transformado numa mera ética e estética, neutralizado enquanto religião, para poder ser objecto de fruição e mesmo idolatria. O problema é que a ética e estética não se sustentam por si mesmas. Quando o cristianismo deixa de ser visto como religião, e apenas é consumido pelos seus frutos, perde o seu poder protector a longo prazo. A ênfase nas catedrais, na glória de Bach, no Estado de Direito assente na dignidade da pessoa humana é apenas uma compensação para a fraqueza da fonte, quando recusada.

É o que ensina a quarta verificação. Quais os casos de maior sucesso desta integração? Em que casos a integração dos judeus ocorreu com maior força, maior brilho, maior êxito? Podíamos dar o caso francês. É verdade. Mas em França os judeus têm apesar de tudo um papel menor. A cultura em que os judeus apareceram com maior brilho, como maiores paladinos da cultura e da sociedade é a das sociedades germânicas. Precisamente, entre as duas Guerras Mundiais.

E vimos no que deu esse sucesso. A ideia de assimilação à francesa mitificando a separação entre o homem público e privado não foi tão gloriosa quanto a ideia de germanidade absoluta incarnada pelos judeus alemães e austríacos. Nenhum mais pode oferecer Mendelssohn, Einstein, Stefan Zweig e quejandos, senão o espaço alemão.

O maior caso de sucesso acaba no genocídio. O segundo maior caso, o francês, acaba em Vichy.

Que nos diz isso sobre a ideia de assimilação, de integração enfática, intensificada?

Não vou falar das sociedades multiculturais. Estas são estéreis culturalmente (salvo se o leitor me indicar um grande físico sassânida, um grande matemático turco, ou um grande sinfonista árabe). Mas de entre as modalidades de integração, a mais intensa, a mais bem sucedida, deu o resultado que se viu.

Que ensinamento retirar disto? Talvez a de que a integração jurídica, cultural, estética, ética, todas as formas de integração no seu grau enfático maior, resultam num genocídio. Foi a sua ênfase, a sua glória, que mais facilmente os tornou alvo de perseguição. Não o seu sucesso propriamente tido, mas o sucesso com que se integraram.

Vejamos o exemplo oposto. Ou melhor, dois. Um é mais anedótico. Descobri há poucos anos (não sou especialista em História de Portugal) que Lisboa no século XVI teria tido uma forte população negra. Séculos depois não há rasto dela, nem de perseguição a uma comunidade negra. Porque pura e simplesmente ela não existia. Evaporaram-se? Atrevo-me a uma hipótese. Passaram-se dois fenómenos. Misturaram-se geneticamente e converteram-se ao cristianismo.

O caso romano é também significativo. Quem estudou História sabe os sentimentos ambivalentes que nos dá a História das invasões bárbaras. Somos herdeiros de Roma e sentimos o peso da queda do império. Mas somos herdeiros de bárbaros, e não os conseguimos odiar. Não queremos a derrota nem de troianos nem de gregos porque nos sabemos filhos de ambos. A Europa oscilou entre a idolatria e o desprezo do sangue bárbaro, e foi a mesma Europa que usa «bárbaro» como insulto que elogia os reis pelas suas origens francas, góticas ou dinamarquesas.

Somos ambos geneticamente, e partilhamos de ambos a religião que acabaram por ter.

Hoje em dia quem distingue o descendente de celta, do germânico, do hispano-romano, ou do arménio? Impossível. Somo-lo todos. No longo prazo um mesmo duplo fenómeno contribuiu para uma só etnia: a mistura das etnias, mistura de sangues, sexual, carnal, associada à conversão.

Esta referência pode parecer erudita e inepta sob o ponto de vista político. Mas basta pensar que em boa parte do século XIX em França se tentou impor a tese de que o povo era celta dominado por uma aristocracia germânica, tese republicana por excelência. A tese falhou. E falhou bem mais que sob o ponto de vista científico. Nunca teve apelo geral para as massas. Da mesma forma, os negros quinhentistas de Lisboa desapareceram da nossa vista pela simples razão de que se fundiram com a restante população.

O caso judaico é significativo sob o ponto de vista civilizacional. Enquanto na Europa a única minoria eram os judeus, estes tornaram-se a minoria mimada, e puderam ser testados os modelos de solução mais variados. Como experimento foi útil, ou melhor, teria sido se tivéssemos aprendido alguma coisa com ele.

Perante as minorias muçulmanas na Europa, todas as soluções supostamente modernas falham, e são frequentemente as pessoas de origem judaica em França que mais apelam para o modelo da assimilação, para o laicismo, para a separação entre espaço público e privado. Tanto mais o fazem, mais se verifica que o mais comum é terem uma especial fidelidade a Israel, o que é legítimo, mas mostra que a dupla pertença é sempre condicional. Esquecem-se, por outro lado, de dar o exemplo alemão de entre guerras como o de mais sucesso e de mais desastrosos resultados. Ainda mais intensificam, mais enfatizam a natureza meramente estética e ética do cristianismo, exigindo uma adesão a um património cultural na sua versão adulterada, liofilizada, tornado religiosamente inerte.

Vinho novo em odres velhos, antigas soluções para problema novo na sua dimensão e contornos. Se tudo falhou até ao momento não é a intensificação que dá remédio. A intensificação apenas denota o desespero de quem a propagandeia. Não é o laicismo que tem de ser intensificado, a estética e a ética enfatizadas, ao contrário do que faz o mundo moderno. Mas perceber que uma civilização é assunto sério demais para ficar por tratados e manuais, ideias ou pior ainda máximas portáteis. Uma civilização é algo que nos penetra a carne, que faz dela parte integrante. Não se admire pois quem dela quer fazer mero letreiro que não sirva de guião.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A questão judaica I

No século XIX e até à II Guerra Mundial ainda era perfeitamente respeitável falar da questão judaica. Autores insuspeitos como Marx dedicaram-se a ela. As teorias abundaram, mais ou menos bem-intencionadas, mais ou menos simplistas. É facto trivial que assim seja, e não nos pode fazer espantar.

A questão é que depois da II Guerra Mundial, ou mais precisamente na percepção do grande público, desde os anos de 1970, tornou-se impossível discutir a questão judaica sem ser acusado de defensor do sionismo ou de anti-semita.

O resultado é que os sentimentos ficam subterrâneos e, bons ou maus, revelam-se de forma ínvia. Os ditos intelectuais de origem judaica dizem que não é muito bonito matar pessoas mas que foram os palestinos quem começou (é o argumento clássico da vingança) os bem pensantes anti-semitas choram apenas pelo sofrimento dos palestinos e vêem semelhanças entre o Estado de Israel e o nazismo. Toynbee, de entre os mais prestigiados, foi dos primeiros a fazer este aparelho.

Já em tempos disse que o problema não é terem uns razão e outros não. O problema é terem todos razão. Quem se vinga tem sempre razão, o que não percebe é que entra num ciclo infinito de vinganças. Kadaré e Girard viram bem isso.

A questão judaica parece que desapareceu da Europa, mas em boa verdade trata-se de um tabu religioso. Todas as épocas criaram tabus e a nossa, que gosta de se ver como racional, é apenas por isso apenas mais cega às suas irracionalidades, salvo as oficiais. Criaram-se como campo da irracionalidade zonas especializadas como o sexo e a morte, os velhos «eros» e «tanathos» (dito em grego parece sempre mais científico), e ficamos mais descansados, porque nos restantes campos parece não existir irracionalidade.

Será assim? Não sejamos ingénuos. Não é. A nossa época lida muito mal com a (ir)racionalidade e prova disso é impor no espaço público o insulto e a indignação. Duas formas de ódio, dois prolegómenos da vingança.

A questão judaica é instrutiva para a Europa num outro sentido muito diverso. O do problema de integração. Os judeus foram as principais cobaias da integração na História recente, e dão-nos fortes ensinamentos na matéria.

Sempre que surgem populações de etnias diversas, surge o problema da sua integração. Os romanos, que não eram tontos, usaram medidas muito sábias e muito brutas na matéria. A primeira foi o morticínio. Pensa-se que na Gália foram mortos um milhão de gauleses com a conquista de César numa população total de doze milhões de pessoas. Os números estarão sempre sujeitos a cautela, mas bastam-nos para os efeitos que nos interessam.

Um dos primeiros passos para a integração é muito simples: matar. Assim de esgotam as forças do potencial inimigo.

Outro passo é o de federar. Foi o que os romanos fizeram com várias tribos bárbaras ao longo de suas fronteiras.

Mas, num e noutro caso, seguiu-se uma política não menos consciente de romanização. Ou seja, proibição de cultos considerados perigosos (a dita tolerância pagã teve sempre limites), como se viu com a perseguição aos druidas e aos sacrifícios humanos. Imposição da língua, do direito, de estruturas municipais romanas, sincretismo de deuses (a boa teocrasia, para falar eruditamente), a boa da interpretatio

 

Em suma, recebe-se, a bem ou mal, e de seguida romaniza-se. Se esquecermos a parte oriental do Império, em que o processo obedeceu a diversas categorias, são estes os passos com as culturas consideradas menos civilizadas.

Ora, foi este o processo que se operou em relação aos judeus, mostrando que na Europa estes eram considerados menos civilizados. Uns mortos, outros aceites, por vezes segregados. Mas o período de emancipação judaica, basicamente a partir de meados do século XVIII, e ao longo de todo o século XIX, é um período de europeização dos judeus. A Europa não recebe rituais judaicos, os judeus abriram-se, ou são obrigados a aprender a cultura europeia.

Primeira verificação, ao contrário do que muitas vezes se pretende, os judeus eram considerados um sub-proletariado subdesenvolvido de cultura inferior. Não foi o Talmude que se impôs na Europa, mas os judeus que tiveram de aprender a matemática, a física, a análise musical, a filosofia europeias. Até ao fim do século XVIII, se retirarmos Espinosa e folclóricas referências a Maimónides, o pensamento judeu, as empresas de judeus e políticos judeus são coisas que não têm grande relevância na Europa. É com Lessing que se começam a ver judeus ilustres na cultura.

A segunda verificação a que somos forçados é que esta emancipação não decorreu de um movimento de revolta dos judeus na Europa, que teriam lutado pelos seus direitos. Os judeus eram numericamente irrelevantes, sem poder económico, cultural ou político. A emancipação dos judeus decorre de iniciativa cristã, decorre da generosidade dos cristãos. Não é bonito dizê-lo hoje em dia, mas tenhamos coragem de ver os factos. Nada obrigava o pensamento das Luzes a pensar numa emancipação judaica. Os judeus não tinham força para a impor. Foi um acto de generosidade.

A terceira verificação é bem mais dura. Como se passou esta «romanização» dos judeus? A verdade é que a sociedade com que se depararam era cristã. No século XIX não havia dúvidas sobre a natureza cristã da civilização europeia. Nem Bauer nem Marx a põem em causa. Como se aculturar numa civilização cristã quando não se é cristão, quando nos definimos precisamente por não ser cristãos?

A verdade é que encontramos entre as pessoas de origem judaica os maiores entusiastas pelo gótico, pela música sacra europeia, por Bach e… lembremo-lo sem medo, por Wagner. Os maiores apaixonados da cultura alemã e francesa encontramo-los muitas vezes entre judeus. Mas o paradoxo é evidente. Como nos podemos apaixonar por uma cultura cristã, ser os seus maiores arautos, e ao mesmo tempo recusar a religião? A solução foi simples e dupla ao mesmo tempo. A metamorfose e a ênfase.

O cristianismo é transformado em fenómeno meramente ético e estético. Se é o Estado cristão, em nome de princípios cristãos (como o Estado prussiano e outros tantos alemães directamente), mesmo que em sucedâneo na forma de princípios liberais, que nos dá liberdade e igualdade, o Estado e a sociedade cristãos são válidos enquanto ética. Da mesma forma, se o cristianismo fez tais obas de cultura, é acolhido enquanto estética.

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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O referendo inglês II

Perante esta possibilidade poderíamos concluir que o cenário oposto seria consolador: a Inglaterra fica na União Europeia. Será assim? Lamento afirmar que não.

 

Há três possibilidades: a Inglaterra obtém excepções substanciais, obtém vantagens meramente formais ou não obtém vantagens nenhumas com a negociação que pretende fazer com a União Europeia. Os cenários são diversos mas têm um elemento comum. Seja qual ele for, a Inglaterra não ficará satisfeita.

 

Em 1975 já houve um referendo inglês sobre o mercado comum. Nessa altura até a senhora Thatcher foi a favor da manutenção da Inglaterra na então CEE. O povo inglês disse sim… e não ficou mais satisfeito. Por isso, seja em que caso for, caso a Inglaterra se mantenha, apenas adiamos um problema. Os ingleses ficarão insatisfeitos. Thatcher votou a favor, Cameron fará o mesmo… e depois mostrará a sua insatisfação, como a sua predecessora.

A diferença entre as possibilidades não se centra portanto no facto de os ingleses nada terem do que querem, só terem migalhas ou terem efectivos ganhos. Na perspectiva da Europa, fazer concessões será relativamente indiferente quantos aos efeitos e será uma perda de autoridade. A mudança dos tratados para acomodá-los a um membro já antes pleno, exigirá os custos normais da modificação de tratados… e para ficarem piores.

A diferença estará eventualmente na postura da Inglaterra caso consiga vantagens substantivas. A que mais se refere neste momento é a da restricção da liberdade de pessoas. Não deixa de ser curioso que quem defende uma Europa democrática queira restringir a liberdade das pessoas. Não quer uma Europa mais próxima dos cidadãos, mas mais longe… para poder dizer que não é democrática. Na política externa haveria uma mudança evidente. A Inglaterra que em tempos foi paladina da adesão turca voltará a sê-lo. Durante anos tinha esperança que os turcos fossem para a Alemanha ou para a Bélgica e por isso era entusiasta. Bastou ver romenos e polacos entrar em grande número em Inglaterra para esfriar o seu entusiasmo. Estando liberta da livre circulação. Far-se-á de novo paladina da adesão turca. A Inglaterra adora os turcos… lá.

Vantagens substantivas dadas aos ingleses teriam outro efeito pernicioso. Outro país que queira modelar a Europa à sua imagem deixará de pensar duas vezes antes de o fazer. Mas também mostraria que há países de segunda e de primeira. A Inglaterra, porque é grande, poderia ter um regime especial, países pequenos não poderiam negociar. A humilhação dos pequenos países não seria pequena. Mais uma vez por força do Reino Unido.

 

Concessões substantivas seriam uma desautorização do projecto europeu. Vantagens formais seriam uma farsa que não enganam ninguém. Vantagem nenhuma humilharia os ingleses (embora de seu exclusivo feito) e reforça a autoridade da União Europeia.

Avento apenas uma hipótese para reflexão. E se desde logo ficasse claro que não há qualquer renegociação? Que quem celebrou o contrato, se quer estar que esteja, se quer sair que saia?

Como vimos, a manutenção da Inglaterra trará sempre insatisfação britânica. Que perde realmente a Europa caso a Inglaterra saia? Não será de pensar que perdem bem mais os ingleses saindo que nós perdendo a sua participação?

Lembro de novo, a hipótese não é agradável, mas a hipótese de ficarem também se anuncia infernal.

Admito. Pode-se dar o caso de eu ter fundamentos caracteriais para colocar esta hipótese. Parece-me muito malcriado estar sempre a ameaçar divórcio. A lassitude instala-se no casamento. Se não estás feliz, por favor sai para que o possas ser. Para onde podes sair? Melhor o saberás. Se para o meio do Atlântico, se para as Bermudas.

O cenário parece complexo, mas afinal simplifica-se. O que quer a Inglaterra não é uma excepção num avanço pretendido, mas pretende um recuo dos dados elementares da União Europeia desde a sua origem, nomeadamente os da livre circulação de pessoas. Já em tempos no parlamento inglês se ameaçou que se sairia da Convenção Europeia dos Direitos do Homem porque o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem estatuiu que os presos tinham direito de voto nas eleições, ao contrário do que certa legislação britânica impunha.

Aceitar um recuo seria admitir que países fascistas poderiam fazer parte da União Europeia, porque uns não queriam a Convenção Europeia dos Direitos do Homem, ou afinal já não queriam os princípios democráticos, ou pretendiam recuar nesse sentido. Alguns países dos Balcãs ou da Europa Central poderiam sentir essa tentação. A Grécia já tem um partido fascista na coligação governamental e vive-se bem com isso. A Hungria tenta-se, e vamos deixando tentar-se. Outros acabariam de vez com a livre circulação de pessoas, outros quereriam fraccionar o «acquis communautaire». Haveria para todos os gostos.

As excepções até ao momento, os chamados «opting out», ocorreram sempre em relação a avanços na integração. Admitir renegociações com a Inglaterra, por mais irrelevantes que fossem os temas renegociados, seria desautorizar toda a construção europeia.

 

Mas, e já o vimos, seja qual for o resultado, a consequência na Inglaterra seria sempre a mesma: caso ganhe o «sim» a estada na União Europeia, a Inglaterra manifestará a sua insatisfação. E precisamente da parte dos que votaram «sim» e dos que fizeram propaganda por ele. Isto simplifica-nos a vida. Se conceder não gera nenhum ganho, há todo o ganho em nada conceder. Não concedamos nada, pois. Deixemos à Inglaterra a liberdade das suas decisões, e a liberdade das suas consequências. Quer sair? Que saia? Digo isto sem acrimónia nenhuma. É de seu direito, é de seu destino. A sua coerência exonera-nos. Sempre insatisfeita, dá-nos o direito de nos ser indiferente a sua insatisfação. Ao menos que não estrague o que não fez.

Concluamos: sendo sempre o resultado o mesmo, ficamos livres de decidir. A sua insatisfação liberta-nos. Que seja crescida e faça o que quiser. Nós faremos por nossa vez o que queremos. Que não nos seja concedido, nem pela forma. Que não concedamos, nem pela forma. Ambos ficaremos assim satisfeitos, finalmente. Porque ambos queremos ser livres na nossa vontade.

Dando-se o caso, que fiquemos calados. Que os políticos europeus apenas digam, «que se respeite a vontade do povo britânico». À volta que se estenda o silêncio. O respeito e a indiferença podem em alguns casos conjugar-se. Em vez de coro que tenhamos meditação. Da minha parte falo agora para melhor estar a vontade para me calar depois. Quando a matilha se puser a ladrar já podermos estar instalados nos nossos cavalos.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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Editorial

As democracias liberais em que vivemos não impõem objectivos sociais, nem quaisquer concepções normativas de bem. Estão ancoradas na ideia de direitos e liberdades individuais, recusando a imposição de valores absolutos ou de concepções pré-definidas de um bem comum. Sem negar a existência de uma Verdade última (isto é, sem negar a existência de um bem último ou comum), e nesse sentido afastando-se do puro niilismo, as nossas actuais democracias, assumindo a sua matriz liberal, negam ao Estado o direito de impor dogmaticamente uma concepção específica de bem. Ao invés, assentam no pressuposto de que o indivíduo pode, por si próprio e através de um processo racional de confronto de ideias, encontrar o caminho para a Verdade.

A pedra angular de todo este edifício demo-liberal, a condição mesma da sua existência, é um espaço público em que, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos, sem dogmas e com uma atitude assumidamente tentativa, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam com tudo o que tem a ver com a vida contemporânea, da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.

Como tal, este ‘marketplace of ideas’, à maneira de Stuart Mill, constitui uma das mais preciosas e poderosas garantias do respeito pela nossa liberdade individual. A sua construção e alimentação quotidianas são um direito, mas sobretudo uma responsabilidade de cada um de nós – que não pode ser inteiramente delegada nem em partidos políticos, nem em corporações, nem tão pouco no chamado sistema mediático.

Neste contexto, o «Geração de 60», enquanto espaço plural de debate que se deseja imodestamente sério e inteligente, é uma contribuição egoísta para a defesa da nossa própria liberdade.